quarta-feira, 18 de abril de 2012

Thomas Hobbes e John Lock


Hobbes e o pensamento político.

Hobbes quis fundar a sua filosofia política sobre uma construção racional da sociedade, que permitisse explicar o poder absoluto dos soberanos. Mas as suas teses, publicadas ao longo dos anos, e apresentadas na sua forma definitiva no Leviatã, de 1651, não foram bem aceites, nem por aqueles que, com Jaime I, o primeiro rei Stuart de Inglaterra, defendiam que «o que diz respeito ao mistério do poder real não devia ser debatido», nem pelo clero anglicano, que já em 1606 tinha condenado aqueles que defendiam «que os homens erravam pelas florestas e nos campos até que a experiência lhes ensinou a necessidade do governo.»

A justificação de Hobbes para o poder absoluto é estritamente racional e friamente utilitária, completamente livre de qualquer tipo de religiosidade e sentimentalismo, negando implicitamente a origem divina do poder.

O que Hobbes admite é a existência do pacto social. Esta é a sua originalidade e novidade.

Hobbes não se contentou em rejeitar o direito divino do soberanos, fez tábua rasa de todo o edifício moral e político da Idade Média. A soberania era em Hobbes a projecção no plano político de um individualismo filosófico ligado ao nominalismo, que conferia um valor absoluto à vontade individual. A conclusão das deduções rigorosas do pensador inglês era o gigante Leviatã, dominando sem concorrência a infinidade de indivíduos, de que tinha feito parte inicialmente, e que tinham substituído as suas vontades individuais à dele, para que, pagando o preço da sua dominação, obtivessem uma proteção eficaz. Indivíduos que estavam completamente entregues a si mesmos nas suas actividades normais do dia-a-dia.

Infinidade de indivíduos, porque não se encontra em Hobbes qualquer referência nem à célula famíliar, nem à família alargada, nem tão-pouco aos corpos intermédios existentes entre o estado e o indivíduo, velhos resquícios da Idade Média. Hobbes refere-se a estas corporações no Leviatã, mas para as criticar considerando-as «pequenas repúblicas nos intestinos de uma maior, como vermes nas entranhas de um homem natural». Os conceitos de «densidade social» e de «interioridade» da vida religiosa ou espiritual, as noções de sociabilidade natural do homem, do seu instinto comunitário e solidário, da sua necessidade de participação, são completamente estranhos a Hobbes.


É aqui que Hobbes se aproxima de Maquiavel e do seu empirismo radical, ao partir de um método de pensar rigorosamente dedutivo. A humanidade no estado puro ou natural era uma selva. A humanidade no estado social, constituído por sociedades civis ou políticas distintas, por estados soberanos, não tinha que recear um regresso à selva no relacionamento entre indivíduos, a partir do momento em que os benefícios consentidos do poder absoluto, em princípio ilimitado, permitiam ao homem deixar de ser um lobo para os outros homens. Aperfeiçoando a tese de Maquiavel, Hobbes defende que o poder não é um simples fenómeno de força, mas uma força institucionalizada canalizada para o direito (positivo), - «a razão em acto» de R. Polin - construindo assim a primeira teoria moderna do Estado.

Deste Estado, sua criação, os indivíduos não esperam a felicidade mas a Paz, condição necessária à prossecução da felicidade. Paz que está subordinada a um aumento considerável da autoridade - a do Soberano, a da lei que emana dele.

Mas, mesmo parecendo insaciável, esta invenção humana com o nome de um monstro bíblico, não reclama o homem todo. De facto, em vários aspectos o absolutismo político de Hobbes aparece como uma espécie de liberalismo moral. Hobbes mostra-se favorável ao desenvolvimento, sob a autoridade ameaçadora da lei positiva, das iniciativas individuais guiadas unicamente por um interesse individual bem calculado, e por um instinto racional aquisitivo.

John Locke




Considerado um dos mais importantes pensadores da doutrina liberal, John Locke nasceu em 1632, na cidade de Wrington, Somerset, região sudoeste da Inglaterra. Era filho de um pequeno proprietário de terras que serviu como capitão da cavalaria do Exército Parlamentar. Mesmo tendo origem humilde, seus pais tiveram a preocupação de dar ao jovem Locke uma rica formação educacional que o levou ao ingresso na academia científica da Sociedade Real de Londres.

Antes desse período de estudos na Sociedade Real, Locke já havia feito vários cursos e freqüentado matérias que o colocaram em contato com diversas áreas ligadas às Ciências Humanas. Refletindo a possibilidade de integração dos saberes, o jovem inglês nutriu durante toda a sua vida um árduo interesse por áreas distintas do conhecimento humano. Apesar de todo esse perfil delineado, não podemos sugerir que Locke sempre teve tendências de faceta liberal.

Quando começou a se interessar por assuntos políticos, Locke inicialmente defendeu a necessidade de uma estrutura de governo centralizada que impedisse a desordem no interior da sociedade. Sua visão conservadora e autoritária se estendia também ao campo da religiosidade, no momento em que ele acreditava que o monarca deveria interferir nas opções religiosas de seus súditos. Contudo, seu interesse pelo campo da filosofia modificou paulatinamente suas opiniões.

Um dos pontos fundamentais de seu pensamento político se transformou sensivelmente quando o intelectual passou a questionar a legitimidade do direito divino dos reis. A obra que essencialmente trata desse assunto é intitulada “Dois Tratados sobre o Governo” e foi publicada nos finais do século XVII. Em suas concepções, Locke defendia o estabelecimento de práticas políticas que não fossem contras as leis naturais do mundo.

Além disso, esse proeminente pensador observou muitos de seus interesses no campo político serem tematizados no interior de seu país quando presenciou importantes acontecimentos referentes à Revolução Inglesa. Em sua visão, um poder que não garantisse o direito à propriedade e à proteção da vida não poderia ter meios de legitimar o seu exercício. Ainda sob tal aspecto, afirmou claramente que um governo que não respeitasse esses direitos deveria ser legitimamente deposto pela população.

No que se refere à propriedade, Locke se utiliza de argumentos de ordem teológica para defender a sua própria existência. Segundo ele, o mundo e o homem são frutos do trabalho divino e, por isso, devem ser vistos como sua propriedade. Da mesma forma, toda riqueza que o homem fosse capaz de obter por meio de seu esforço individual deveriam ser, naturalmente, de sua propriedade.

Interessado em refletir sobre o processo de obtenção do conhecimento e a importância da educação para o indivíduo, Locke foi claro defensor do poder transformador das instituições de ensino. De acordo com seus ensaios, o homem nascia sem dominar nenhuma forma de conhecimento e, somente com o passar dos anos, teria a capacidade de acumulá-lo. A partir dessa premissa é que o autor britânico acreditava que as mazelas eram socialmente produzidas e poderiam ser superadas pelo homem.

O reconhecimento do legado de Locke ocorreu quando ele ainda era vivo. Durante a vida, teve a oportunidade de ocupar importantes cargos administrativos e exerceu funções de caráter diplomático. Na Inglaterra, chegou a ocupar o cargo de membro do Parlamento e defendeu o direito dessa instituição indicar os ministros que viessem a compor o Estado. Respeitado por vários outros representantes do pensamento liberal, John Locke faleceu em 1704, na cidade de Oates, Inglaterra.

Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola

Cultura Brasileira: da diversidade à desigualdade

Mesmo admitindo a existência de diversos estudos e discussões antropológicas sobre o conceito de cultura, podemos considerá-la, grosso modo, da seguinte forma: a cultura diz respeito a um conjunto de hábitos, comportamentos, valores morais, crenças e símbolos, dentre outros aspectos mais gerais, como forma de organização social, política e econômica que caracterizam uma sociedade. Além disso, os processos históricos são em grande parte responsáveis pelas diferenças culturais, embora não sejam os únicos fatores a se considerar. Isso nos permite afirmar que não existem culturas superiores ou inferiores, mas sim diferentes, com processos históricos também diversos, os quais proporcionaram organizações sociais com determinadas peculiaridades. Dessa forma, podemos pensar na seguinte questão: o que caracteriza a cultura brasileira? Certamente, ela possui suas particularidades quando comparada ao restante do mundo, principalmente quando nos debruçamos sobre um passado marcado pela miscigenação racial entre índios, europeus e africanos.


A cultura brasileira em sua essência seria composta por uma diversidade cultural, fruto dessa aproximação que se desenvolveu desde os tempos de colonização, a qual, como sabemos, não foi, necessariamente, um processo amistoso entre colonizadores e colonizados, entre brancos e índios, entre brancos e negros. Se é verdade que portugueses, indígenas e africanos estiveram em permanente contato, também é fato que essa aproximação foi marcada pela exploração e pela violência impostas a índios e negros pelos europeus colonizadores, os quais a seu modo tentavam impor seus valores, sua religião e seus interesses. Porém, ao retomarmos a ideia de cultura, adotada no início do texto, podemos afirmar que, apesar desse contato hostil num primeiro momento entre as etnias, o processo de mestiçagem contribuiu para a diversidade da cultura brasileira no que diz respeito aos costumes, práticas, valores, entre outros aspectos que poderiam compor o que alguns autores chamam de caráter nacional.

A culinária africana misturou-se à indígena e à europeia; os valores do catolicismo europeu fundiram-se às religiões e aos símbolos africanos, configurando o chamado sincretismo religioso; as linguagens e vocabulários afros e indígenas somaram-se ao idioma oficial da coroa portuguesa, ampliando as formas possíveis para denominarmos as coisas do dia a dia; o gosto pela dança, assim como um forte erotismo e apelo sexual juntaram-se ao pudor de um conservadorismo europeu. Assim, do vatapá ao chimarrão, do frevo à moda de viola caipira, da forte religiosidade ao carnaval e ao samba, tudo isso, a seu modo, compõe aquilo que conhecemos como cultura brasileira. Ela seria resultado de um Brasil-cadinho (aqui se fazendo referência àquele recipiente, geralmente de porcelana, utilizado em laboratório para fundir substâncias) no qual as características das três “raças” teriam se fundido e criado algo novo: o brasileiro. Além disso, do ponto de vista moral e comportamental, acredita-se que o brasileiro consiga reunir, ao mesmo tempo, características contraditórias: se por um lado haveria um tipo de homem simples acostumado a lutar por sua sobrevivência contra as hostilidades da vida (como a pobreza), valorizando o mérito das conquistas pessoais pelo trabalho duro, por outro lado este mesmo homem seria conhecido pelo seu “jeitinho brasileiro”, o qual encurta distâncias, aproxima diferenças, reúne o público e o privado.

Ainda hoje há quem possa acreditar que nossa mistura étnica tenha promovido uma democracia racial ao longo dos séculos, com maior liberdade, respeito e harmonia entre as pessoas de origens, etnias e cores diferentes. Contudo, essa visão pode esconder algumas armadilhas. Nas ciências sociais brasileiras não são poucos os autores que já apontaram a questão da falsidade dessa democracia racial, apontando para a existência de um racismo velado, implícito, muitas vezes, nas relações sociais. Dessa forma, o discurso da diversidade (em todos os seus aspectos, como em relação à cultura), do convívio harmônico e da tolerância entre brancos e negros, pobres e ricos, acaba por encobrir ou sufocar a realidade da desigualdade, tanto do ponto de vista racial como de classe social. Ainda hoje, mesmo com leis claras contra atos racistas, é possível afirmarmos a existência do preconceito de raça na sociedade brasileira, no transporte coletivo, na escola, até no ambiente de trabalho. Isso não significa que vivamos numa sociedade racista e preconceituosa em sua essência, mas sim que esta carrega ainda muito de um juízo de valor dos tempos do Brasil colonial, de forte preconceito e discriminação. Além disso, se a diversidade cultural não apagou os preconceitos raciais, também não diminuiu outro ainda muito presente, dado pela situação econômica-social do indivíduo.

É preciso considerar que a escravidão trouxe consequências gravíssimas de ordem econômica para a formação da sociedade brasileira, uma vez que os negros (pobres e marginalizados em sua maioria) até hoje não possuem as mesmas oportunidades, criando-se uma enorme distância entre as estratificações sociais. Como sugere o antropólogo Darcy Ribeiro, mais do que preconceitos de raça ou de cor, têm os brasileiros um forte preconceito de classe social.

Dessa forma, o Brasil da diversidade é, ao mesmo tempo, o país da desigualdade. Por isso tudo é importante que, ao iniciarmos uma leitura sobre a cultura brasileira, possamos ter um senso crítico mais aguçado, tentando compreender o processo histórico da formação social do Brasil e seus desdobramentos no presente para além das versões oficiais da história.

Paulo Silvino Ribeiro
Colaborador Brasil Escola
Bacharel em Ciências Sociais pela UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas
Mestre em Sociologia pela UNESP - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"
Doutorando em Sociologia pela UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

A fantasia das três raças brasileiras
Na atualidade não existe nenhuma sociedade ou grupo social que não possua a mistura de etnias diferentes. Há exceções como pouquíssimos grupos indígenas que ainda vivem isolados na América Latina ou em algum outro lugar do planeta.

De modo geral, as sociedades contemporâneas são o resultado de um longo processo de miscigenação de suas populações, cuja intensidade variou ao longo do tempo e do espaço. O conceito “miscigenação” pode ser definido como o processo resultante da mistura a partir de casamentos ou coabitação de um homem e uma mulher de etnias diferentes.

A miscigenação ocorre na união entre brancos e negros, brancos e amarelos e entre amarelos e negros. O senso comum divide a espécie humana entre brancos, negros e amarelos, que, popularmente, são tidos como "raças" a partir de um traço peculiar – a cor da pele. Todavia, brancos, negros e amarelos não constituem raças no sentido biológico, mas grupos humanos de significado sociológico.

No Brasil, há o “Mito das três raças”, desenvolvido tanto pelo antropólogo Darcy Ribeiro como pelo senso comum, em que a cultura e a sociedade brasileiras foram constituídas a partir das influências culturais das “três raças”: europeia, africana e indígena.

Contudo, esse mito não é compartilhado por diversos críticos, pois minimiza a dominação violenta provocada pela colonização portuguesa sobre os povos indígenas e africanos, colocando a situação de colonização como um equilíbrio de forças entre os três povos, o que de fato não houve. Estudos antropológicos utilizaram, entre os séculos XVII e XX, o termo “raça” para designar as várias classificações de grupos humanos; mas desde que surgiram os primeiros métodos genéticos para estudar biologicamente as populações humanas, o termo raça caiu em desuso.

Enfim, "o mito das três raças" é criticado por ser considerado uma visão simplista e biologizante do processo colonizador brasileiro.

Orson Camargo
Colaborador Brasil Escola
Graduado em Sociologia e Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP
Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAM
P

Transformações na Família


As mudanças ocorridas durante o final do Século XIX e ao longo da primeira metade do Século XX, tiveram implicações diretas nas famílias brasileiras da segunda metade do Século XX, principalmente na saída da mulher para o mercado de trabalho, na educação dos filhos, na impessoalidade nas relações sociais, no controle da natalidade e no enfraquecimento dos laços de parentesco.

Historicamente, a preservação parcial da economia latifundiária explicaria, segundo Teruya (2000, p. 10), a manutenção das enormes desigualdades sociais no país, juntamente com as relações semi-patriarcais, principalmente nos estados do Norte. Por outro lado, o desenvolvimento da economia industrial no Sudeste é que passou a transformar a família, fazendo com que ela se nuclearizasse, para atender melhor as demandas da sociedade moderna, e com que perdesse a sua função reprodutiva.

Para a autora, a condição urbano/rural foi a baliza para determinar o tipo familiar. E, também, que a união do processo de urbanização e da industrialização da sociedade no século XX, juntamente com o fenômeno da migração, fizeram com que o controle da produção passasse gradualmente da família para os empresários capitalistas e para o Estado. Em decorrência desta união ocorreram o enfraquecimento das relações de parentesco, a redução do tamanho da família e a redução do poder do pai e do marido. (TERUYA, 2000, p. 10).

Atualmente as famílias são formadas por diversas estruturas: por exemplo, há mães solteiras com seus filhos; pais com filhos adotivos; famílias formadas por casais que já tiveram outros casamentos com filhos e decidiram ter outros filhos dessa união; temos ainda famílias formadas por um casal e um “animal de estimação”... e, também, se questiona se podemos considerar família o solteiro adulto que vive sozinho.

De modo, dois fatores recentes precipitaram toda essa transformação na organização familiar. O primeiro fator foi a legalização do divórcio, que, no Brasil, virou lei em 1977. O segundo foi o surgimento da pílula anticoncepcional, que garantiu aos homens e às mulheres a alternativa de uma vida sexual desvinculada da patenidade/maternidade. 12 O flagrante da revolução contemporânea, porque passa a população e a família brasileira, se completa com núcleos familiares formados por minorias como os homossexuais (com casamento e adoção de crianças) e por conta das novas técnicas de reprodução (inseminação artificial, doador de esperma, barriga de aluguel, etc.). A respeito destas famílias alternativas, Danda Prado, em 1981, já apontava quatro formas de famílias cujas principais características as diferenciavam das formas tradicionais:
a) A família criada em torno a um casamento dito “de participação” – trata-se aí de ultrapassar os papéis sexuais tradicionais.
b) O casamento dito “experimental” – que consiste na coabitação durante algum tempo, só legalizando essa situação após o nascimento do primeiro filho. c) Outra forma de família seria aquela baseada na “união livre”.
d) A família homossexual, quando duas pessoas de mesmo sexo vivem juntas, com crianças adotivas ou resultantes de uniões anteriores, ou, no caso de duas mulheres, com filhos por inseminação artificial. (PRADO, 1981, p. 19-22). Diversos estudos sobre a história da família, desigualdade e exclusão social e valor familiar tem fornecido elementos que ajudam a entender os rumos das mudanças porque tem passado as famílias na sociedade brasileira. As transformações ocorridas dentro e fora das famílias nas últimas décadas, segundo Fukui (1998, p. 18-19), passam, principalmente, pela mudança de valores, pois o valor da família não revalece mais sobre o dos sentimentos individuais das pessoas. Por muito tempo e ainda hoje, os valores associados à família estiveram sempre apoiados num princípio que atrelava a sexualidade, reprodução e casamento, resultando num modelo de família conjugal, com casamento indissolúvel e monogâmico.

Fukui também aponta que modificações essenciais ocorreram no plano das práticas, que, por sua vez, repercutiram no plano dos valores e paulatinamente foram mudando as representações de família na sociedade brasileira. A esse respeito ela assinala três grandes transformações. Primeiro, ocorreu a separação da sexualidade e da reprodução: o número de filhos começa a ser previsto ou planejado. Segundo, a reprodução dissociou-se do casamento: não há mais filhos ilegítimos. E, finalmente, a sexualidade dissociou-se do casamento: reconheceu-se o direito às uniões consensuais. Estas transformações marcaram de tal forma a sociedade brasileira, que a lei brasileira teve que adaptar e assimilar uma série de mudanças.

a) Família: Para o novo Código Civil a definição de família abrange a unidade formada por casamento, união estável ou comunidade de qualquer genitor e descendente. No Código de 1916, “família legítima” era definida apenas pelo casamento oficial. b) Casamento: O casamento passou a ser a “comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges”. É apenas uma das formas para constituir família. O novo texto reconhece ainda a união estável. c) Filhos: Filhos adotados e concebidos fora do casamento têm direitos idênticos aos dos nascidos dentro do matrimônio. Eliminou-se a pejorativa distinção entre “legítimos” e “ilegítimos” para designar os descendentes. d) Igualdade dos sexos: A palavra “pessoa” substitui “homem”. O “pátrio poder”, que o pai exercia sobre os filhos, passa a ser “poder familiar” e é atribuído também à mãe. A família é dirigida pelo casal, e não mais apenas pelo homem. e) Guarda dos filhos: A lei do divórcio de 1977, atribuía a guarda dos filhos ao cônjuge que não tivesse provocado a separação ou, não havendo acordo, mãe. Hoje, é concedida a “quem revelar melhores condições para exercê-la”. (PEREIRA, 2003, p. 86).

Voltando nosso olhar para os dados numéricos produzidos pelo IBGE nas últimas décadas do século XX, vemos que as mudanças ocorridas nas famílias, dentro e fora de casa, atingiram todos os segmentos sociais. Porém, em se tratando de família é difícil afirmar o que influenciou o que. Mudaram as relações de trabalho, o poder aquisitivo, as crenças da ciência. .e a legislação. Cada mudança tem a sua parte na responsabilidade do formato das famílias na virada do século XXI, porém um aspecto é inegável: as mulheres foram as principais protagonistas das mudanças ocorridas na família nas últimas décadas do século XX. A dinâmica populacional brasileira vem, segundo diversos autores, passando por uma transição demográficae experimentando rápidas transformações ao longo do século XX, como por exemplo: a) a redução da imigração internacional; b) a queda da mortalidade seguida no tempo pela queda das taxas de fecundidade; c) aumento das migrações da área rural para a urbana; d) mudanças na distribuição etária com o envelhecimento da população; e, e) a diminuição do número de crianças e adolescentes. A esse respeito, Beltrão, Camarano e Kanzo (2004, p. 1) salientam que o movimento de passagem de um estágio de população relativamente estável, em função de taxas de mortalidade e fecundidade altas, a um estágio e mortalidade e fecundidade baixas, estaria, no Brasil, acontecendo em velocidade acelerada, principalmente, se comparado à experiência européia. Portanto, o Brasil estaria completando, de forma rápida, o que se convencionou chamar de “transição demográfica”. Movimento, este, que chegou a durar mais de 1000 anos em alguns países da Europa.

A proporção de pessoas de 0 a 14 anos de idade na população total, que em 1950, 1960 e 1970 se apresentava estável, em torno de 42%, passou a apresentar declínio: de 38,2% em 1980, para 34,7% em 1991 e para 29,6% em 2000. Por outro lado, a proporção de pessoas de 15 a 64 anos e de 65 anos e mais aumentou. Porém, enquanto a primeira nos anos 50, 60 e 70 ficava em torno de 55%, passando a aumentar nos anos seguintes: 57,7% em 1980, 60,5% em 1991 e 64,5% em 2000, a segunda apresentava aumentos sucessivos: 2,4% em 1950, 2,8% em 1960, 3,1% em 1970, 4,0% em 1980, 4,8% em 1991e 5,9% em 2000.

Os dados do Censo 2000 mostram que a razão de dependência, da população total do País, estava em torno de 55% e, também, que 27% das pessoas de 60 anos ou mais são esponsáveis por mais de 90% do rendimento familiar; 66,8% se encontram aposentadas; 11,2% eram pensionistas; e, do total de 8 milhões de pessoas na faixa de 55 anos e mais, 15% acumulam benefícios previdenciários. Também o rendimento médio das famílias chefiadas por mulheres idosas (R$ 347,00) é superior a de famílias mantidas pelos homens idosos (R$ 304,41). Mais uma prova de que o mundo dos idosos hoje, sem dúvida, é das mulheres é o fato de que 55% das pessoas maiores de 60 anos são mulheres.

Outro fato ligado ao envelhecimento da população é que cada vez mais aposentadas estão chefiando as famílias. De fato, de rainha do lar as brasileiras de 60 anos e mais deixam o posto de dona de casa e se tornam provedoras de filhos e netos e das despesas domésticas.
Segundo Camarano (2003, p. 51), isto acontece porque nas duas últimas décadas, 1980 e 2000, a proporção de mulheres idosas sem rendimento declinou expressivamente (de 63,6% paras 20,2%); as que recebem benefícios oficiais aumentou expressivamente (de 6,7% para 74,5%); e, também, porque é mais alta a proporção de viúvas (de 11,4% para 36,8%). O índice de envelhecimento passou de 13,9%, em 1991, para 19,7%, em 2000. Este processo de envelhecimento, segundo Bercovich e Pereira (2003, p. 26), é explicado pela continuação do processo de declínio da fecundidade e simultaneamente, o crescimento da esperança de vida, tanto dos homens como das mulheres.

Movimento de passagem de altos para baixos níveis de mortalidade e de fecundidade. Pode ocorrer em três fases: 1) quando a fecundidade e mortalidade são altas, ocasionando baixo crescimento populacional; 2) quando a mortalidade se reduz e a fecundidade permanece constante, ocasionando crescimento populacional elevado; e 3) quando a fecundidade e a mortalidade são baixas, ocasionando baixo crescimento populacional.

Razão entre a população potencialmente inativa (0 a 14 anos e 65 anos ou mais de idade) sobre a potencialmente ativa (15 a 64 anos de idade). Relação entre a população de 65 anos e mais e a população de menos de 15 anos. A taxa de fecundidade total, que nos anos 50 e 60 girava em torno de 6,2 filhos por mulher, caiu para 5,8 em 1970, 4,6 em 1980, 2,8 em 1991 e, em 2000, está em torno de 2,3. A esperança de vida ao nascer que em 1950 estava em 43,3 anos, nos anos censitários apresentou aumentos cada vez maiores: 48,0 em 1960, 52,7 em 1970, 62,5 em 1980, 66,9 em 1991 e 70,4 em 2000. As taxas de alfabetização e analfabetismo que em 1950 praticamente dividiam a população ao meio, pois apresentavam valores semelhantes – 49,4% e 50,6% – começam a ficar, cada vez mais, distantes uma da outra – 60,3% e 39,7% em 1960; 66,2% e 33,8% em 1970; 74,5% e 25,5% em 1980; 79,9% e 20,1% em 1991; e, 86,4% e 13,6% em 2000. Embora tenha tido esta ascensão, ainda não pode ser considerado o ideal. O outro aspecto importante da população brasileira, em 2000, refere-se aos anos de estudos concluídos pelos brasileiros. De um total de quase 147 milhões de pessoas com 7 ou mais anos de idade, aproximadamente 1/3 teve ou tem de 4 a 7 anos de estudo. Segundo Pinto et al (2003, p. 47), se levarmos em consideração que a Educação Básica exige um tempo mínimo de 11 anos de estudos, sem contar com a experiência e desenvolvimento cognitivo e social adquirido na Educação Infantil, somente algo em torno de 18% da população consultada teve ou tem os anos de estudo necessários à sua formação básica. Em 2000 os lares ocupados por uma pessoa sozinha aumentaram 64%. Os divórcios triplicaram. O número de casamentos legais diminuiu 12%. O número de mulheres que criam seus filhos sozinhos resceu 53%. Muitas famílias brasileiras já não seguem o modelo tradicional de pai, mãe e filhos de um único casamento. 19,4% das famílias organizam-se de formas nas quais no mínimo um dos pais está ausente. Um em cada quatro domicílios tem três gerações morando juntas.

Enquanto o número de casais em união civil e religiosa, entre 1980 e 2000, teve um decréscimo, passando de 63,9% em 1980, para 58,3% em 1991 e para 49,4% em 2000, o número de uniões consensuais, no mesmo período aumentou consideravelmente, passando de 11,7% em 1980, para 18,5% em 1991 e para 28,6% em 2000. Por outro lado, nos quatro últimos anos censitários o número de pessoas morando sozinhas apresentou aumento em todos os anos: 4,9% (1970), 5,8% (1980), 6,5% (1991) e 8,6% (2000).

O panorama da nupcialidade dos brasileiros, com base nos dados do Censo Demográfico do ano 2000, apresenta, segundo Simões et al (2003, p. 35) características, quanto à situação conjugal, que consistem no declínio da proporção de solteiros, no crescimento da proporção de desquitados, separados judicialmente e divorciados e na manutenção da proporção de casados e de viúvos em relação ao Censo Demográfico 1991. Outra característica revelada foi a redução da proporção das pessoas que não viviam em companhia de cônjuge, mas que já viveram em união e que declararam-se casadas.

Outra tendência aponta por Simões et al (2003, p. 25) é que os resultados censitários, sobre as pessoas unidas, mostraram que, enquanto as uniões legais vêm declinando ao longo dos censos, as uniões consensuais vêm aumentando, principalmente, dentre os mais jovens.
Outro fato é que os homens se unem mais tarde que as mulheres. De 1970 para 2000 o número de domicílios chefiados por mulher subiu de 18,1% para 26,5%. O Distrito Federal, em 2000, apresenta o maior percentual de domicílios com mulheres chefes (34,6%), seguido do Rio de Janeiro (32,2%). A família encolheu. Tendência, esta, que vem se verificando ao longo das últimas décadas. Em média, em 1991, cada família tinha 3,9 pessoas, passando, em 2000, para 3,5.

Porém as famílias residentes nas áreas rurais, embora tenha diminuído, continuam sendo maiores que as residentes em áreas urbanas. Em 1991, em média, as famílias urbanas possuíam 3,8 pessoas e as rurais 4,4, passando, em 2000, para 3,4 e 4,0, respectivamente.
Em número de componentes os domicílios também encolheram. Enquanto no Século XIX e início do Século XX as famílias apresentavam-se extensas, com um número elevado de membros, como, por exemplo, no ano de 1920 em que o número médio de pessoas por domicílio correspondia a 7,73 pessoas, os dados da segunda metade do Século XX mostram decréscimo. No Quadro 1 verifica-se que o número médio de pessoas por família passou de 5,18 pessoas para 3,52 pessoas entre 1960 e 2000 e que o número médio de pessoas por domicílio decresceu de 5,20 pessoas para 3,79 pessoas no mesmo período.

No período inter-censitário (1991-2000), em parte como conseqüência da transição demográfica ocorrida no País, houve, segundo Sabóia e Caillaux (2003, p. 61), uma diminuição no número de domicílios com mais de uma família, assim como uma queda na densidade de moradores por dormitório. Para o total do Brasil, a proporção de domicílios com mais de uma família residente diminuiu de 6,8% em 1991 para 6,5% em 2000, fenômeno este também verificado nas Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste (6,2% para 5,4%; 6,4% para 5,3%; e 6,4% para 5,5%, respectivamente), porém, nas Regiões Norte e Nordeste ocorreram aumento (9,2% para 10,4% e 7,6% para 8,4%, respectivamente).
Em relação a densidade de moradores por dormitório, os dados apontam que a proporção do número de domicílios com até dois moradores por dormitório apresentou aumento, tanto no total do Brasil quanto em todas as regiões. No Brasil esta proporção passou de 62,9% (1991) para 72,3% (2000).

Comentários finais
A família brasileira, neste novo milênio, aparece como uma nova família: com novo formato, novo modelo, cara nova, etc. O álbum de família moderno requer legendas cada vez mais encorpadas para explicar quem é quem. Embora o arranjo familiar composto de casal com filho, com ou sem parentes, seja, ainda, a maioria do total de arranjos (61,0% em 1991 para 55,7% em 2000), em muitos lares não existe mais o modelo clássico, com pai, mãe e filhos do mesmo casamento, o que é demonstrado pelo grande aumento de casais que vivem em união consensual (18,3% em 1991 para 28,3% em 2000); pelo número crescente de pais e mães sozinhos que criam os filhos (16,8% em 1991 para 19,4% em 2000); e pelo crescimentodo número de separações judiciais e divórcio que entre 1993 e 2003 aumentaram 17,8% e 44%, respectivamente. São estatísticas que confirmam, na prática, a mudança no conceito de família. Embora o modelo nuclear ainda seja maioria, cresce a incidência de novos arranjos.Ao olharmos o retrato das famílias atuais, segundo Pereira (2003, p. 82), poderemos os deparar com algumas situações que deixariam nossos avós admirados: aquele que parece ser o pai é o padrasto; a moça com uma criança no colo não é a mãe, mas uma meia-irmã; os três jovens que dividem o mesmo teto são um casal e uma amiga; e aquela que parecia ser a mãe pode ser na verdade a namorada dela, etc. Além do mais, acrescenta Pereira, os domicílios são ormados por gente morando sozinha, avós ou tios criando netos, casais sem filhos, “produções independentes” e outras tantas alternativas, como, por exemplo, os grupos de amigos que decidem morar junto para dividir um apartamento grande. E não se trata, no caso, de estudantes de orçamento apertado, mas de adultos com trabalho fixo e contracheque.

Outras situações familiares, nos tempos atuais, estão cada vez mais freqüentes. Algumas, de temporárias, acabam virando definitivas, como o homem que se separa da mulher e volta a morar com os pais, “apenas por alguns dias”, ou então aquelas em que os filhos adultos permanecem residindo na casa dos pais e retardam ao máximo o grito de independência, prolongando a convivência familiar e saindo, apenas, quando julgam que está na hora de constituir uma nova família ou de morar sozinho. A nova família, que anteriormente era definida pela obrigação e hoje é definida pelo afeto, cada vez mais aparece no cenário nacional, num debate em torno do presente e do futuro da instituição família e do valor da família diante da generalização do individualismo. A esse respeito, Lia Zanotta Machado em entrevista concedida a Pereira (2003, p. 84), aponta que o valor da família não prevalece mais sobre os dos sentimentos individuais das pessoas, visto que até a metade do Século XX para se formar uma família predominava fortemente a relação de consangüinidade e hoje, o mais importante é a relação amorosa.

Os avanços tecnológicos permitiram que se pudesse limitar o número de filhos e que se pudesse viver por muito mais tempo, trazendo implicações diretas no tamanho e na estrutura da família. Segundo Berquó (1989, p. 13), a competição entre os sexos influenciou os desejos e as decisões de entrar e de sair de uniões conjugais, afetando diretamente o celibato, a idade de entrada em união, o tipo de união conjugal escolhido, sua duração, seu rompimento e início ou não de novas uniões. Quanto às mudanças e perspectivas futuras da população e da família brasileira, tudo indica que os três aspectos, apontados por Goldani (1994, p. 18), são e continuam sendo importantes nos rumos futuros a serem tomados, tanto pelo Estado quanto pela população. Primeiro, os prognósticos demográficos para os próximos anos e seus impactos sobre a estrutura populacional e sobre a composição das demandas por serviços públicos e familiares. Segundo, as tendência e perspectivas institucionais que caracterizam as políticas sociais e econômicas do Estado brasileiro e as chances de participação da população. Finalmente, o potencial de mudanças da família frente aos fatos atuais e às expectativas das pessoas quanto aos valores e comportamentos em áreas sensíveis de mudanças na família, tais como: relações entre os sexos e casamento, filhos, e as novas condições da mulher.

Porém, no futuro, mesmo que a contínua dependência da mulher em relação ao marido, dos filhos com os pais e vice-versa mantenha-se em declínio, visto que cada vez mais mulheres e filhos estão no mercado de trabalho e desafiam os esquemas de dependência e responsabilidades no interior do núcleo doméstico, a família não deixará seu papel de refúgio ou de último recurso ao qual seus membros recorrem, pois é na família que nos momentos tristes buscamos consolo, amparo e esperança; nos momentos de alegria encontramos confraternização; e nos momentos de dificuldade encontramos apoio e solidariedade.

terça-feira, 10 de abril de 2012

MAX WEBER (1864-1920)

Para Weber a sociedade pode ser compreendida a partir do conjunto das ações individuais. Estas são todo tipo de ação que o indivíduo faz, orientando-se pela ação de outros.

Só existe ação social, quando o indivíduo tenta estabelecer algum tipo de comunicação, a partir de suas ações com os demais.

Weber estabeleceu quatro tipos de ação social. Estes são conceitos que explicam a realidade social, mas não são a realidade social:

1 – ação tradicional: aquela determinada por um costume ou um hábito arraigado;

2 – ação afetiva: aquela determinada por afetos ou estados sentimentais;

3 – racional com relação a valores: determinada pela crença consciente num valor considerado importante, independentemente do êxito desse valor na realidade;

4 – racional com relação a fins: determinada pelo cálculo racional que coloca fins e organiza os meios necessários.

Nos conceitos de ação social e definição de seus diferentes tipos, Weber não analisa as regras e normas sociais como exteriores aos indivíduos.

Para ele as normas e regras sociais são o resultado do conjunto de ações individuais.

Na sua concepção o método deve enfatizar o papel ativo do pesquisador em face da sociedade.

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

É um dos livros fundamentais da teoria sociológica clássica. Elaborado com o intuito de se contrapor às interpretações materialistas do marxismo em voga, o livro propõe uma compreensão do capitalismo que parte, ao invés do âmbito econômico (as relações sociais de produção, como fazia Marx), do âmbito espiritual, cultural. Daí porque a história do capitalismo é contada a partir do desenvolvimento da ética protestante. Esta ética, surgida no contexto da Reforma como crítica do Catolicismo, propunha uma forma de religiosidade diferente, mais espiritualizada. O ponto principal de divergência entre a ética protestante e a católica está em sua concepção de salvação: ao contrário das doutrinas católicas, o protestantismo não considera que as boas ações do sujeito possam influir em sua salvação. Ao contrário, esta salvação está garantida ou não por Deus, independentemente do comportamento do sujeito. O sujeito não tem como garantir sua salvação, mesmo que aja moralmente e que pratique o bem. Se este sujeito possui esse comportamente irreprovável, o protestantismo considera que ele deve ser um escolhido, mas não pode, de modo algum, garantir isso. Os desígnios divinos estão absolutamente fora do alcance de qualquer ser humano. Entre Deus e os homens, não há qualquer mediação - mesmo a Igreja não possui qualquer contato especial com Ele. Daí porque também, no protestantismo, toda vida religiosa que antes era coletiva (na Idade Média católica) torna-se essencialmente individual.Nesse sentido, o protestantismo: 1) separa radicalmente o homem de Deus, já que os desígnios d'Ele não podem ser conhecidos pela limitada mente humana; 2) desenvolve a teoria da Predestinação (já que não podemos agir moralmente e assim garantir a salvação, só podemos imaginar que alguns são predestinados à salvação, embora não possamos nos certificar de quais são os escolhidos); 3) como substituto à idéia católica das boas ações que garantem a salvação, cria-se a idéia de que o sucesso na vida mundana é um sinal de que se é predestinado. Com isso, o protestantismo cria uma ética inteiramente nova: a ética do trabalho. Se Deus quer a Glória, se todo o Universo é criado para a Glória de Deus, e se os homens são escolhidos ou não nesse Universo por Deus, sem que nós possamos garantir nenhuma salvação, então apenas podemos nos contentar (e procurar nos tranquilizar) com a idéia de que, se somos prósperos, se engrandecemos a glória divina, então devemos ter sido escolhidos. Daí porque a riqueza é o sinal de nossa salvação, e consequentemente, a ética é a da produção da glória divina, a produção da prosperidade, da riqueza. No entanto, esta riqueza deve ser produzida para a Glória de Deus e não para a glória humana mundana. O sinal da salvação é dado pela prosperidade do homem que acumula, e não pelo homem que gasta - pois este último não trabalha pela glória de Deus, portanto não deve ser um escolhido.A ética protestante, como ética do trabalho feito para a acumulação (e não para os gastos, as despesas, o consumo da riqueza) é o fator cultural determinante para o desenvolvimento do capitalismo, segundo Weber. Assim, contrapondo-se à interpretação marxista clássica, Weber propõe uma inversão no materialismo - propõe que um valor ético foi capaz de criar as condições para um desenvolvimento econômico - e torna-se, desse modo, um outro clássico fundamental na literatura sociológica.

Karl Marx

Criador de uma doutrina filosófica, econômica, social e política desenvolvida no século XIX. Eles analisaram crítica e profundamente as estruturas das sociedades através da história para fundamentar suas idéias – por isso, o marxismo também ficou conhecido como socialismo científico.

Marx e Engels acreditavam que a característica central de uma sociedade era seu modo de produção e que ele determinava as condições socioeconômicas (infra-estruturas) bem como a cultura, o regime político, a moral e os costumes (superestruturas). Assim, quando um modo de produção se esgotava, passando a se tornar inviável, e outro surgia em seu lugar, a sociedade se reestruturava.

Essas mudanças se dariam através das lutas de classes que moldam a história e suas transformações através dos séculos. Impulsionadas pela dialética, quando uma sociedade expusesse suas contradições e problemas, os homens refletiriam e lutariam por algo novo que buscasse compensar o que houvesse de errado.

Marx e Engels constaram, portanto, que a forma de acabar com a desigualdade que existia à época entre o proletariado e a burguesia seria através da luta de classes, com o proletariado fazendo uma revolução e impondo uma ditadura. Somente desta forma, defendiam, a sociedade poderia passar por um processo de socialismo no qual se reestruturaria para, finalmente, dar início à fase comunista onde o Estado e as propriedades deixariam de existir e a sociedade seria igualitária.

Foi um filósofo, cientista político, e socialista revolucionário muito influente em sua época, até os dias atuais. É muito conhecido por seus estudos sobre as causas sociais. Teve enorme importância para a política européia, ao escrever o Manifesto Comunista, juntamente com Friedrich Engels, que deu origem ao “Marxismo”, citado adiante. Foi um ativista do movimento operário europeu, no chamado International Workingmen’s Association (IWA), também conhecido como First International.
A influência de suas idéias atingiram todo o mundo, como na vitória dos Bolcheviques na Rússia. Enquanto suas teorias começaram a declinar quanto à popularidade, especialmente após o colapso do regime Soviético, elas continuam sendo muito utilizadas hoje, em movimentos trabalhistas, práticas políticas, movimentos políticos.

MARXISMO

O marxismo se baseia no materialismo e o socialismo científico, constituindo ao mesmo tempo uma teoria geral e o programa dos movimentos operários. Em razão disso, o marxismo forma uma base de ação para estes movimentos, porque eles unem a teoria com a prática. Para os marxistas, o materialismo é a arma pela qual é possível abolir a filosofia como instrumento especulativo da burguesia (o Idealismo) e fazer dela um instrumento de transformação do mundo a serviço do proletariado (força de trabalho). Este conceito tem duas bases: o materialismo dialético e o materialismo histórico. O primeiro coloca a simultaneidade da matéria e do espírito, e a constituição do concreto por uma evolução concebida como “desenvolvimento por saltos, catástrofes e revoluções”, causando uma evolução em um grau mais alto, graças a “negação da negação” (dialética).

O materialismo histórico coloca que a consciência dos homens é determinada pela realidade social, ou seja, pelo conjunto dos meios de produção, base real sobre a qual se eleva uma super estrutura jurídica e política e à qual correspondem formas de consciência social determinada.

Analisando o capitalismo, Marx desenvolveu uma teoria para o valor dos produtos: o valor é a expressão da quantidade de trabalho social utilizado na produção da mercadoria. No sistema capitalista, o trabalhador vende ao proprietário a sua força de trabalho, muitas vezes o único bem que têm, tratada como mercadoria, e submetida às leis do mercado, como concorrência, baixos salários. “Ou é isto, ou nada. Decida-se que a fila é grande”. A diferença entre o valor do produto final e o valor pago ao trabalhador, Marx deu o nome de mais-valia, que expressa, portanto, o grau de exploração do trabalho. Os empregadores tem uma tendência natural de aumentar a mais-valia, acumulando cada vez mais riquezas.

Após a Segunda Guerra Mundial, o marxismo teve um crescimento considerável, principalmente em países do terceiro mundo, onde se constituiu como ponto de referência para os movimentos de libertação nacional. Este crescimento foi acompanhado de desenvolvimentos e divisões: a crítica ao Stalinismo na antiga URSS e suas práticas nos países ocidentais, a ruptura entre URSS e a China, a análise do imperialismo por militantes políticos, como Ho Chi Minh, no Vietnã, Fidel Castro em Cuba, etc.

Auguste Comte (1798 –1857)

Foi um filósofo francês, nascido em Montpellier em 1798. Começou sua carreira ensinando matemática, depois tornou-se secretário de Saint-Simon. Nesta época, começou a escrever o livro "Curso de filosofia Positiva", que seria uma filosofia das ciências. De um lado, procede a uma classificação das ciências, por ordem de complexidade, de outro, formula a Lei dos Três estados, que caracterizam períodos da história humana.

A Teoria social de Comte é vista como evolucionista, uma vez que concebe as diferentes sociedades em diferentes graus de evolução, como vemos a seguir com a Lei dos três estados.

A LEI DOS TRÊS ESTADOS
Os três estados, de acordo com a história humana, são:

Teológico: o estado onde Deus está presente em tudo, as coisas acontecem por causa da vontade dele. As coisas sem explicação são explicadas pura e simplismente por Deus. Esse estado tem outras três divisões:

- Animismo: as coisas da natureza tem sua própria “animação”, acontecem porque desejam isto, não por fatores externos, têm vida própria.
- Politeísmo: os desejos dos deuses são colocados em objetos, animais ou coisas.
- Moneísmo: os desejos do Deus (único), são expostos em coisas, acontecimentos.

Metafísico: no qual a ignorância da realidade e a descrença num Deus todo poderoso levam a crer em relações misteriosas entre as coisas, nos espíritos, como exemplo. O pensamento abstrato é substituído pela vontade pessoal.

Positivo: a humanidade busca respostas científicas todas as coisas. Este estado ficou conhecido como Positivismo. A busca pelo conhecimento absoluto, esclarecimento sobre a natureza e seus fatos. É o resultado da soma dos dois estágios anteriores.

Contexto Historico do surgimento da Sociologia

A revolução Industrial e a sua contribuição para o surgimento da sociologia:
-A Revolução Industrial vai muito além da máquina e do aperfeiçoamento técnico;-É o triunfo do empresário capitalista: dono de máquinas, ferramentas e massas humanas.
-Uma nova forma de organizar a vida social;
-O artesão foi submetido a uma severa disciplina, a uma nova forma de conduta e de relações de trabalho.
-Entre 1780 e 1860 ritmo de urbanização acelerado na Inglaterra;
-Emigração do campo para a cidade;
-Uma nova realidade – cidades sem estrutura de moradias, saneamento básico e saúde.
-Rápida industrialização/urbanização trouxe conseqüências trágicas:
-Prostituição, suicídio, alcoolismo, infanticídio,criminalidade, violência, epidemias.
-Surgimento da classe operária: passaram a negar sua condição de vida, luta contra os proprietários dos instrumentos de trabalho.

-Qual a relação desses fatos com a sociologia?-Essas transformações colocaram a sociedade emplano de análise, um problema, um objeto a ser investigado.
-Pensadores ingleses queriam introduzir modificações na sociedade, produzir conhecimento e dele extrair ações.
-Sociologia como uma resposta intelectual e prática às novas situações causadas pela Revolução Industrial.
-Análises da classe trabalhadora, da cidade industrial,das transformações tecnológicas.

As modificações na forma de pensamento – OIluminismo
-Desde o século XVI que a observação e a experimentação foram usadas para a explorar os fenômenos da natureza.
-Renúncia paulatina do sobrenatural;
-Século XVIII – Iluminismo: procuravam transformar as formas de conhecimento e a própria sociedade.
-Aliados da burguesia, atacam a sociedade feudal.
-Com o uso da razão analisaram vários aspectos da sociedade: população, comércio, religião, a moral, a família.
-O objetivo dos Iluministas: demonstrar que asinstituições eram irracionais e injustas;
-Eram obstáculos contra a liberdade do indivíduo.
-Deram dimensão crítica ao conhecimento: compreendiao mundo e o negava.
-Forte contribuição para a crescente racionalização da vida social.
-Desenvolvimento das ciências naturais e humanas.

A Revolução Francesa e a nova ordem
-Apoiada em ideais iluministas, a burguesia buscou o fim do Antigo Regime (monarquia absolutista, os resquícios feudais na economia e na sociedade)
-Mobilização e controle da massa.
-Impacto na sociedade foi profundo;
-Pensadores franceses da época concentraram sua atenção na natureza e conseqüências da Revolução.
-Saint Simon, Auguste Comte e Le Plav;
-Rancor pela revolução, momento de crise e desordem;
-Tentam racionalizar a nova ordem, encontrando soluções para a desorganização.
-Para estabelecer a ordem, era necessário conhecer as leis que regiam os fatos sociais.
-Instituem uma ciência da sociedade.
-Burgueses assustados com a força da revolução – não mais uma visão revolucionária, e sim organizadora, que levasse a ordem;
Saint Simon: “a filosofia do último século foi revolucionária; a do século XIX deve ser reorganizadora”
-No decorrer o século XIX, a França foi se tornando,como a Inglaterra, uma sociedade industrial ;
-Repete-se o mesmos problemas: miséria, desemprego e luta de classes.
-Os pioneiros da sociologia mantém seus interesses práticos, ou seja, higienizar a sociedade, reorganizá-la apartir da nova ciência.
-Enfatizam a importância de instituições como autoridade, a família, a hierarquia social.
-Um conteúdo estabilizador, ligado a reforma conservadora da sociedade.
-Não foi essa sociologia questionou os fundamentos da sociedade capitalista.

Conclusão
-Todos esses processos históricos ocasionaram problemas sociais que conturbaram a Europa doséculo XIX.
-Esse “turbilhão social” faz com que surjam intelectuais preocupados e propostos a por uma“ordem social” oriunda dessas revoluções.
-Neste contexto é que surge a Sociologia.-Le Play, Saint-Simon, Augusto Comte vão sistematizar e refletir sobre a realidade social da época.